O que é o câncer de pele?
A pele é o maior órgão do corpo e está exposta, todos os dias, ao principal fator de risco para o câncer: a radiação ultravioleta do sol. Ao longo dos anos, essa radiação provoca pequenos danos no DNA das células da pele. Na maior parte das vezes o organismo corrige esses danos; quando não corrige, uma célula pode começar a se multiplicar sem controle e formar um tumor.
O tipo de câncer depende da célula de origem. Quando a célula é da camada basal da epiderme, o tumor é um carcinoma basocelular. Quando é uma célula mais superficial, o queratinócito, o tumor é um carcinoma espinocelular. Quando é o melanócito, a célula que produz o pigmento da pele, o tumor é um melanoma. Existem ainda tumores raros que nascem de glândulas, nervos ou do tecido de sustentação da pele.
No Nordeste, onde o sol é intenso o ano inteiro e a população envelhece, o câncer de pele é uma realidade frequente. A estimativa do INCA aponta milhares de novos casos por ano só no Ceará, a grande maioria do tipo não melanoma. A boa notícia é que se trata de um câncer visível: ele aparece na superfície da pele, pode ser reconhecido cedo e, quando tratado de forma adequada, tem cura na maior parte dos casos.
Quais são os tipos de câncer de pele?
Os tumores de pele se dividem em dois grandes grupos: o câncer de pele não melanoma, que inclui o carcinoma basocelular e o carcinoma espinocelular e responde por mais de 90% dos casos, e o melanoma, menos comum, porém mais agressivo. Os tumores raros formam um terceiro grupo, com comportamento próprio.
| Tipo | Frequência | Célula de origem | Comportamento típico | Chance de metástase |
|---|---|---|---|---|
| Carcinoma basocelular (CBC) | Cerca de 70–80% dos casos | Célula basal da epiderme | Crescimento lento, invasão local | Excepcional |
| Carcinoma espinocelular (CEC) | Cerca de 15–20% dos casos | Queratinócito | Crescimento mais rápido, pode invadir profundamente | Baixa, mas real (maior em tumores de alto risco) |
| Melanoma | Cerca de 3–5% dos casos | Melanócito | Pode se disseminar cedo se não for tratado | Depende da espessura (Breslow) |
| Tumores raros | Menos de 1% | Glândulas, tecido conjuntivo, células neuroendócrinas | Variável; alguns têm extensão subclínica ampla | Variável |
Carcinoma basocelular
O carcinoma basocelular é o câncer de pele mais comum e, felizmente, o de comportamento menos agressivo. Ele cresce devagar, quase nunca dá metástase, mas invade e destrói o tecido ao redor se não for tratado. Costuma aparecer como um "carocinho" brilhante ou perolado, uma ferida que não cicatriza ou uma placa avermelhada, principalmente no rosto. É o tumor para o qual a cirurgia de Mohs é mais frequentemente indicada. Carcinoma basocelular
Carcinoma espinocelular
O carcinoma espinocelular é o segundo mais comum e exige mais atenção, porque tem potencial de invadir estruturas profundas e, em uma minoria dos casos, de se espalhar para os gânglios linfáticos. Surge com frequência sobre pele muito danificada pelo sol, muitas vezes a partir de uma lesão pré-cancerosa chamada ceratose actínica. Pacientes imunossuprimidos, como transplantados, têm risco bastante aumentado. Carcinoma espinocelular
Melanoma
O melanoma é o menos frequente dos três, mas o que mais preocupa, porque pode se disseminar para outros órgãos. Costuma surgir como uma pinta nova ou uma pinta antiga que muda de tamanho, cor ou formato. Detectado cedo, quando ainda é fino, tem alta chance de cura com cirurgia. A regra do ABCDE ajuda a reconhecer os sinais. Melanoma
Tumores raros
Dermatofibrossarcoma protuberans, carcinoma anexial microcístico, carcinoma sebáceo, carcinoma de células de Merkel e doença de Paget extramamária são tumores incomuns, muitas vezes diagnosticados tardiamente porque se parecem com lesões benignas. Alguns deles têm raízes microscópicas que se estendem muito além do que se vê, o que torna o controle das margens especialmente importante. Tumores raros de pele
Quais são os sinais de câncer de pele?
O câncer de pele raramente dói no início. Por isso, o principal sinal é visual: uma lesão que aparece e não vai embora, ou uma pinta que muda. Vale ficar atento a:
- Uma ferida que não cicatriza em quatro a seis semanas, ou que cicatriza e reabre
- Um nódulo brilhante, perolado ou translúcido, às vezes com pequenos vasos na superfície
- Uma mancha ou placa avermelhada, áspera, que descama e às vezes sangra
- Uma "verruga" ou "casquinha" endurecida que cresce rápido
- Uma pinta assimétrica, com bordas irregulares, várias cores, maior que 6 mm ou que está mudando
- Uma lesão escura nova em adulto, principalmente após os 40 anos
- Uma cicatriz que parece crescer, ou uma área endurecida e esbranquiçada sem motivo aparente
Nenhum desses sinais confirma o diagnóstico. Eles indicam que a lesão precisa ser avaliada por um dermatologista. Explicamos cada um com mais detalhe em Sinais de câncer de pele.
Imagem · cancer-de-pele-02 · Ilustrações esquemáticas dos sinais mais comuns de câncer de pele (nódulo perolado, ferida que não cicatriza, placa descamativa, pinta irregular)
alt: “Sinais de alerta de câncer de pele em ilustração educativa” · 1600 px de largura · cancer-de-pele-02-sinais-de-alerta-de-cancer-de-pele-em-ilustracao-educativa.webp
Quem tem mais risco de câncer de pele?
O fator mais importante é a exposição ao sol acumulada ao longo da vida, especialmente sem proteção. Por isso o câncer de pele é mais comum depois dos 50 anos, em quem trabalhou ou trabalha ao ar livre, e nas regiões mais expostas: rosto, orelhas, couro cabeludo, pescoço, braços e mãos.
Outros fatores aumentam o risco: pele clara, cabelos ruivos ou loiros e olhos claros; queimaduras solares na infância e adolescência; histórico pessoal ou familiar de câncer de pele; grande número de pintas; uso de câmaras de bronzeamento; imunossupressão por transplante, doenças ou medicamentos; radioterapia prévia; e algumas doenças genéticas raras. No Nordeste, a combinação de sol forte o ano inteiro com atividades ao ar livre faz com que mesmo pessoas de pele morena desenvolvam tumores, embora com menor frequência.
Quem já teve um câncer de pele tem chance maior de ter outro. Estudos mostram que uma parte significativa dos pacientes desenvolve um segundo tumor nos anos seguintes, o que justifica o acompanhamento dermatológico regular.
Como é feito o diagnóstico?
Exame clínico e dermatoscopia
O primeiro passo é a consulta com o dermatologista, que examina a lesão a olho nu e com o dermatoscópio, um instrumento de aumento com luz polarizada que mostra estruturas invisíveis a olho nu. A dermatoscopia aumenta bastante a precisão do exame, mas não substitui a biópsia.
Biópsia
A biópsia é a retirada de um fragmento (ou de toda a lesão) para análise ao microscópio. É um procedimento rápido, feito com anestesia local no consultório. Existem alguns tipos: por punch (um pequeno cilindro), por shaving (raspagem superficial), incisional (um fragmento de uma lesão maior) ou excisional (retirada completa da lesão). A escolha depende da suspeita clínica. No melanoma, por exemplo, a preferência é pela biópsia excisional, para que a espessura do tumor possa ser medida corretamente.
Laudo histopatológico
O resultado da biópsia, chamado laudo histopatológico, costuma levar de uma a três semanas. Ele informa o tipo de tumor, o subtipo histológico, e, em alguns casos, informações sobre profundidade e margens. Esses detalhes definem o tratamento. Preparamos um guia para ajudar a entender o laudo em Como entender o laudo da biópsia de pele.
Exames complementares
Na grande maioria dos cânceres de pele não melanoma, nenhum outro exame é necessário. Em carcinomas espinocelulares de alto risco, melanomas mais espessos ou tumores raros, o médico pode solicitar ultrassonografia dos gânglios, tomografia ou ressonância, e, em casos selecionados, pesquisa de linfonodo sentinela.
Quais são os tratamentos para o câncer de pele?
O tratamento depende do tipo de tumor, do subtipo, do tamanho, da localização e das condições do paciente. Na maioria dos casos, o tratamento é cirúrgico.
| Tratamento | Para que casos | Como funciona | Observações |
|---|---|---|---|
| Cirurgia convencional (excisão com margens) | CBC e CEC de baixo risco; melanoma (com margens definidas pelo Breslow) | Retirada do tumor com margem de segurança e envio ao laboratório | Resultado das margens sai dias depois; examina cerca de 0,1% a 1% da margem |
| Cirurgia de Mohs | CBC e CEC de alto risco, tumores no rosto, recidivados, agressivos; melanoma in situ em áreas selecionadas; alguns tumores raros | Retirada em camadas com análise de ~100% das margens no mesmo dia | Maior taxa de cura na literatura, com menor retirada de pele saudável |
| Curetagem e eletrocoagulação | CBC superficiais e pequenos em áreas de baixo risco | Raspagem do tumor seguida de cauterização | Sem controle de margens; recidiva maior em tumores agressivos |
| Crioterapia | Lesões pré-cancerosas (ceratose actínica) e alguns tumores superficiais | Congelamento com nitrogênio líquido | Sem análise histológica |
| Tratamentos tópicos (imiquimode, 5-fluorouracil) | Ceratose actínica, CBC superficial selecionado | Creme aplicado por semanas | Requer adesão e acompanhamento |
| Terapia fotodinâmica | Ceratose actínica, CBC superficial | Fotossensibilizante + luz | Boa estética; menor eficácia em tumores espessos |
| Radioterapia | Pacientes sem condição cirúrgica; complemento em casos de alto risco | Radiação localizada em várias sessões | Alternativa quando a cirurgia não é possível |
| Tratamento sistêmico (imunoterapia, terapia-alvo, inibidores de hedgehog) | Melanoma avançado, CEC avançado, CBC localmente avançado ou metastático | Medicação por via oral ou venosa | Conduzido por oncologista clínico |
A cirurgia continua sendo o tratamento com maior taxa de cura para os tumores de pele localizados, porque é o único que permite confirmar ao microscópio que o tumor foi todo retirado.
Quando a cirurgia de Mohs é indicada?
A cirurgia micrográfica de Mohs é uma forma de cirurgia em que o próprio cirurgião examina praticamente 100% das margens ao microscópio durante o procedimento, retirando camadas adicionais apenas onde ainda há tumor. Isso resulta na maior taxa de cura descrita na literatura, com a menor perda de pele saudável. Entenda a técnica em detalhe em Cirurgia de Mohs.
Ela não é necessária para todo câncer de pele. Os critérios de uso apropriado publicados pelas sociedades americanas de dermatologia e cirurgia de Mohs (AUC, 2012), adotados também no Brasil, indicam a Mohs principalmente quando o tumor:
- Está no rosto, especialmente na região central (nariz, pálpebras, lábios, orelhas, têmporas), no couro cabeludo, nas mãos, nos pés ou nos genitais
- É grande para a região: maior que 2 cm no tronco e nos membros, maior que 1 cm na face e maior que 0,6 cm na área central do rosto
- Tem bordas mal definidas ao exame clínico
- Já foi tratado antes e voltou (recidiva)
- É de um subtipo histológico agressivo: esclerodermiforme (morfeiforme), infiltrativo, micronodular ou basoescamoso, no CBC; pouco diferenciado ou com invasão perineural, no CEC
- Ocorre em paciente imunossuprimido ou em área previamente irradiada
- É um tumor raro com tendência a extensão subclínica, como o dermatofibrossarcoma protuberans
Para um carcinoma basocelular nodular pequeno e bem delimitado no tronco, por exemplo, a cirurgia convencional é perfeitamente adequada. A decisão é individual e deve ser conversada com o cirurgião. Explicamos os critérios em linguagem simples em Quando a cirurgia de Mohs é indicada (e quando não é).
Câncer de pele tem cura?
Na grande maioria dos casos, sim. O carcinoma basocelular e o carcinoma espinocelular localizados são curados pela cirurgia em mais de 90% dos casos na literatura, e a cirurgia de Mohs eleva esse índice a até 99% para o carcinoma basocelular primário. O melanoma detectado na fase inicial, quando ainda é fino, também tem alta chance de cura com a cirurgia. Os números caem quando o diagnóstico é tardio, quando o tumor já voltou de um tratamento anterior ou quando há metástase. Por isso a mensagem é sempre a mesma: quanto mais cedo, melhor.
Vale lembrar que "cura" em oncologia é uma probabilidade, não uma promessa. Mesmo após um tratamento bem-sucedido, o acompanhamento é necessário para identificar cedo uma eventual recidiva ou um novo tumor. Falamos sobre isso em Câncer de pele que voltou.
Como prevenir o câncer de pele?
A prevenção tem duas frentes. A primeira é reduzir a exposição ao ultravioleta: evitar o sol entre 10h e 16h, usar chapéu de aba larga, óculos e roupas com proteção, e aplicar filtro solar com FPS 30 ou mais nas áreas expostas, reaplicando a cada duas horas ou após suor e água. No Nordeste, isso vale o ano inteiro, e vale também em dias nublados.
A segunda frente é a detecção precoce: o autoexame mensal da pele, com a ajuda de um espelho ou de um familiar para as costas e o couro cabeludo, e a consulta anual com dermatologista, ou mais frequente para quem já teve câncer de pele, tem muitas pintas ou é imunossuprimido. Lesões pré-cancerosas como a ceratose actínica podem ser tratadas antes de evoluírem para um carcinoma. Sinais de câncer de pele
Câncer de pele em Fortaleza e no Nordeste
O Nordeste tem alta exposição solar o ano inteiro e uma população que envelhece, o que faz do câncer de pele um dos diagnósticos mais frequentes da região. O tratamento da maioria dos tumores é feito por dermatologistas e cirurgiões em qualquer capital, mas a cirurgia de Mohs, indicada para os casos de maior risco, existe em poucos serviços, concentrados sobretudo em Fortaleza e Recife. Quem mora no interior do Ceará ou nos estados vizinhos costuma viajar para a cirurgia e fazer o acompanhamento na própria cidade. Veja a situação em Cirurgia de Mohs em Fortaleza e, para os demais estados, em Cirurgia de Mohs no Nordeste.
Perguntas frequentes sobre câncer de pele
Qual é o tipo de câncer de pele mais comum?
O carcinoma basocelular, que responde por cerca de 70% a 80% de todos os casos. É também o de comportamento menos agressivo: cresce devagar e praticamente não dá metástase, embora possa destruir o tecido ao redor se não for tratado.
Câncer de pele dói?
Geralmente não, pelo menos no início. A ausência de dor é um dos motivos pelos quais muitas pessoas demoram a procurar avaliação. Coceira, sangramento ou dor costumam aparecer só em lesões maiores ou mais avançadas.
Carcinoma basocelular pode virar melanoma?
Não. São tumores de células diferentes e um não se transforma no outro. O que pode acontecer é uma mesma pessoa ter os dois tipos ao longo da vida, já que compartilham o mesmo fator de risco principal, o sol.
Quanto tempo demora o resultado da biópsia?
Em geral, de uma a três semanas, dependendo do laboratório. Exames adicionais de imuno-histoquímica, necessários em alguns casos, podem prolongar esse prazo.
Todo câncer de pele precisa de cirurgia de Mohs?
Não. A Mohs é indicada para tumores no rosto e em outras áreas de alto risco, tumores grandes, agressivos, com bordas mal definidas ou recidivados. Tumores pequenos e bem delimitados em áreas de baixo risco podem ser tratados com cirurgia convencional com ótimo resultado.
Pessoas de pele morena ou negra têm câncer de pele?
Sim, embora com frequência menor. Em pele mais escura, o melanoma aparece com mais frequência nas palmas das mãos, plantas dos pés e sob as unhas, e o diagnóstico costuma ser mais tardio. Toda lesão nova ou que muda deve ser avaliada, independentemente do tom de pele.
Onde fazer a cirurgia de Mohs
A cirurgia de Mohs exige um cirurgião com formação específica na técnica e laboratório de congelação ao lado da sala cirúrgica. Por isso a oferta no Nordeste se concentra em poucas capitais. Fortaleza reúne parte dessa estrutura, com cirurgiões formados em centros de referência, e recebe pacientes do interior do Ceará e dos estados vizinhos. Se você mora no Piauí, Maranhão, Rio Grande do Norte, Paraíba ou Pernambuco, veja a situação da oferta no seu estado em Cirurgia de Mohs no Nordeste. Ao escolher, pergunte se o cirurgião tem formação formal em Mohs e se ele mesmo interpreta as lâminas durante a cirurgia.
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