O que é ceratose actínica?
Ceratose actínica, também escrita queratose actínica ou chamada de queratose solar, é uma alteração das células da camada mais superficial da pele provocada pela radiação ultravioleta. Ao longo de anos de sol, o DNA dessas células sofre danos que se acumulam. Em algum momento, um grupo delas passa a se multiplicar de forma desordenada, formando uma placa áspera e escamosa. "Actínica" vem de raio, em referência aos raios solares; "ceratose" indica o excesso de queratina que dá a textura de lixa.
Por definição, a ceratose actínica é uma lesão pré-maligna: as células alteradas ainda estão confinadas à epiderme e não invadiram a camada mais profunda da pele. É exatamente por isso que tratá-la é tão importante. Ela é a fase em que ainda se pode agir antes de o problema virar um câncer de pele propriamente dito. As diferenças entre os tipos de tumor estão na página Câncer de pele.
Como reconhecer uma ceratose actínica?
A ceratose actínica costuma ter algumas características típicas.
Ela é pequena, com poucos milímetros até cerca de 1 ou 2 centímetros. A superfície é áspera, seca, com escamas finas ou uma crosta que se desprende e volta. A cor varia de rosada ou avermelhada a cor da pele ou acastanhada. Muitas vezes é mais fácil sentir do que ver: ao passar o dedo, a pele parece uma lixa fina. Pode arder ou coçar levemente, mas geralmente não dói. Aparece nas áreas mais castigadas pelo sol: testa, têmporas, nariz, bochechas, orelhas, couro cabeludo de quem tem calvície, lábio inferior, colo, antebraços e dorso das mãos.
É comum que as lesões venham em grupo. Uma pessoa com uma ceratose actínica visível geralmente tem outras iniciando ao redor, ainda invisíveis. No lábio inferior, a mesma alteração recebe o nome de queilite actínica, e se apresenta como ressecamento persistente, descamação e perda da nitidez da linha do lábio.
Ceratose actínica pode virar câncer?
Pode. A ceratose actínica é considerada o estágio inicial de um processo que pode terminar em carcinoma espinocelular (CEC), o segundo tipo mais comum de câncer de pele. A literatura estima que o risco de uma lesão isolada evoluir para CEC em um ano é baixo, mas como as lesões são múltiplas e persistem por anos, o risco acumulado em uma pessoa com muitas ceratoses se torna relevante. Estudos indicam que uma parcela expressiva dos carcinomas espinocelulares surge sobre uma ceratose actínica ou ao lado dela.
O problema é que não existe uma forma segura de prever qual lesão vai evoluir e qual vai permanecer estável ou até regredir. Por isso a recomendação da Sociedade Brasileira de Dermatologia e das diretrizes internacionais é tratar as ceratoses actínicas, e não apenas observá-las. Sinais de que uma lesão pode estar se transformando incluem crescimento rápido, endurecimento, espessamento, dor ao toque, sangramento e formação de ferida que não cicatriza. Nesses casos, a biópsia é necessária, e o resultado deve ser interpretado com calma, como explicamos em Como entender o laudo da biópsia de pele. Sobre o CEC, veja Carcinoma espinocelular.
O que é campo de cancerização?
Campo de cancerização é o nome que os dermatologistas dão a uma área inteira de pele que sofreu dano solar crônico e onde as células já carregam alterações genéticas, mesmo que só algumas lesões sejam visíveis. Um couro cabeludo calvo e avermelhado com três ceratoses aparentes, por exemplo, é um campo de cancerização: entre as três lesões visíveis há dezenas de focos microscópicos.
Esse conceito mudou a forma de tratar. Tratar apenas as lesões visíveis, uma a uma, resolve o problema momentâneo, mas novas lesões continuam surgindo. Por isso, em pacientes com muitas ceratoses, o dermatologista costuma combinar o tratamento das lesões individuais com um tratamento de campo, que age sobre toda a área danificada.
Quais são os tratamentos para ceratose actínica?
Há tratamentos dirigidos a lesões isoladas e tratamentos de campo. A escolha depende do número de lesões, da espessura, da localização, da tolerância do paciente e da disponibilidade de cada método. A tabela resume as opções mais usadas.
| Tratamento | Como funciona | Indicação principal | O que esperar |
|---|---|---|---|
| Crioterapia (nitrogênio líquido) | Congela a lesão, que descama em dias | Poucas lesões, bem definidas | Ardência na hora, bolha ou crosta por 1–2 semanas; pode deixar mancha clara |
| 5-fluorouracil (creme) | Destrói seletivamente as células alteradas | Campo de cancerização, muitas lesões | Vermelhidão intensa e crostas por 2–4 semanas de uso; depois a pele se renova |
| Imiquimode (creme) | Estimula o sistema imunológico local a eliminar as células anormais | Campo de cancerização, rosto e couro cabeludo | Inflamação por semanas; aplicação em dias alternados por vários ciclos |
| Terapia fotodinâmica | Aplica-se um creme fotossensibilizante e a área é iluminada por luz específica | Campo de cancerização, áreas extensas | Dor ou ardência durante a luz; vermelhidão por dias; boa resposta estética |
| Curetagem | Raspagem da lesão, com ou sem eletrocoagulação | Lesão espessa isolada ou suspeita | Permite enviar material para biópsia; pequena cicatriz |
| Cirurgia (excisão) | Retirada da lesão com margem | Lesão suspeita de já ser CEC | Cicatriz linear; confirma o diagnóstico |
Outros medicamentos tópicos, como o diclofenaco em gel e a tirbanibulina, também existem, com disponibilidade variável no Brasil. Vale destacar que a cirurgia de Mohs não é tratamento para ceratose actínica: ela é reservada aos carcinomas já estabelecidos, sobretudo os de alto risco. A indicação correta de cada técnica é explicada em Quando a cirurgia de Mohs é indicada (e quando não é).
O tratamento de campo costuma provocar uma reação forte na pele, com vermelhidão, crostas e desconforto. Isso é esperado e sinal de que está agindo. Muitos pacientes desistem no meio por conta desse aspecto, e é importante combinar previamente com o médico a duração e o que fazer nos dias mais intensos.
Por que a ceratose actínica é tão comum no Nordeste?
O Nordeste brasileiro está entre as regiões com maior índice de radiação ultravioleta do país, com sol forte praticamente o ano inteiro e pouca variação sazonal. Em Fortaleza e no interior do Ceará, do Piauí e dos estados vizinhos, o índice UV atinge níveis considerados extremos na maior parte dos dias, mesmo com nuvens.
Somam-se a isso os hábitos e as profissões. Trabalhadores ao ar livre, como agricultores, pescadores, pedreiros, vendedores ambulantes, motoristas, carteiros e entregadores, acumulam décadas de exposição diária, muitas vezes sem chapéu, sem camisa ou sem protetor. A pele clara, comum entre descendentes de europeus no interior, aumenta o risco, mas pessoas de pele morena também desenvolvem ceratose actínica, ainda que mais tarde e com menor frequência.
O resultado é que, nos consultórios de dermatologia da região, a ceratose actínica é um dos diagnósticos mais frequentes em pessoas acima de 50 anos, e o carcinoma espinocelular em trabalhadores rurais é uma realidade cotidiana. O INCA aponta o câncer de pele não melanoma como o mais frequente no Brasil, e a exposição solar ocupacional é um dos principais fatores por trás desses números.
Como prevenir novas lesões?
Tratar as ceratoses existentes é metade do trabalho. A outra metade é reduzir o dano que continua chegando. A fotoproteção precisa ser um hábito, não uma medida para o dia de praia.
O protetor solar deve ter FPS 30 ou mais, ser aplicado todos os dias nas áreas expostas, incluindo orelhas, couro cabeludo (em quem tem calvície), pescoço, colo e dorso das mãos, e reaplicado a cada duas horas em quem trabalha ao ar livre ou transpira. Chapéu de aba larga, e não boné, protege orelhas e nuca. Roupas de manga longa, de preferência com proteção UV, e óculos escuros completam a barreira. Sempre que possível, evitar o sol direto entre 10h e 15h.
Estudos mostram que o uso regular de protetor solar reduz o surgimento de novas ceratoses actínicas e favorece a regressão de lesões iniciais. Em pacientes com muitas lesões e história de carcinoma espinocelular, o dermatologista pode discutir medidas adicionais, como a nicotinamida oral, cuja evidência para reduzir novos tumores em pessoas de alto risco vem sendo estudada.
Com que frequência devo voltar ao dermatologista?
Quem tem ceratose actínica tem pele com dano solar e, portanto, risco aumentado de qualquer tipo de câncer de pele, não apenas de CEC. A recomendação geral é fazer revisão da pele a cada 6 a 12 meses, ou com intervalos menores se houver muitas lesões, histórico de câncer de pele ou imunossupressão. Entre as consultas, vale o autoexame mensal, prestando atenção a lesões que mudaram, endureceram ou começaram a sangrar.
Se uma lesão tratada volta no mesmo lugar, engrossa ou vira uma ferida, ela deve ser reavaliada com biópsia, porque pode já ser um carcinoma. Nos casos em que o CEC se confirma em áreas de alto risco, como orelha, lábio e nariz, a cirurgia de Mohs passa a ser considerada; veja a página Cirurgia de Mohs.
Perguntas frequentes
Ceratose actínica é câncer de pele?
Não. Ceratose actínica é uma lesão pré-maligna, ou seja, uma alteração que ainda não é câncer, mas que pode evoluir para carcinoma espinocelular se não for tratada. Por isso a orientação é tratar as lesões e proteger a pele do sol, em vez de apenas observar.
Ceratose actínica some sozinha?
Algumas lesões podem regredir espontaneamente, sobretudo com fotoproteção rigorosa, mas muitas persistem e outras aparecem. Como não há como prever quais evoluirão para câncer, o dermatologista recomenda tratar as lesões existentes e cuidar do campo de cancerização.
Qual é o melhor tratamento para ceratose actínica?
Não existe um tratamento único para todos. Lesões isoladas costumam ser tratadas com crioterapia; muitas lesões em uma mesma área pedem tratamento de campo com cremes como 5-fluorouracil e imiquimode ou terapia fotodinâmica. A escolha depende do número de lesões, do local e da tolerância do paciente.
O creme para ceratose actínica deixa a pele muito vermelha. Isso é normal?
Sim. A vermelhidão, as crostas e a ardência são esperadas com o 5-fluorouracil e o imiquimode, e indicam que o medicamento está agindo sobre as células alteradas. A reação dura algumas semanas e a pele se renova depois. Combine com o médico o que fazer nos dias mais intensos.
Ceratose actínica precisa de cirurgia de Mohs?
Não. A cirurgia de Mohs é indicada para carcinomas já estabelecidos, principalmente os de alto risco no rosto, e não para lesões pré-malignas. Se uma ceratose actínica evoluir para carcinoma espinocelular em uma área crítica, a Mohs pode então ser considerada.
Quem trabalha no sol pode evitar a ceratose actínica?
O risco pode ser bastante reduzido com chapéu de aba larga, camisa de manga longa, protetor solar reaplicado ao longo do dia e pausas na sombra nos horários de sol mais forte. Revisões periódicas da pele permitem tratar lesões iniciais antes que evoluam.
Onde fazer a cirurgia de Mohs
A cirurgia de Mohs exige um cirurgião com formação específica na técnica e laboratório de congelação ao lado da sala cirúrgica. Por isso a oferta no Nordeste se concentra em poucas capitais. Fortaleza reúne parte dessa estrutura, com cirurgiões formados em centros de referência, e recebe pacientes do interior do Ceará e dos estados vizinhos. Se você mora no Piauí, Maranhão, Rio Grande do Norte, Paraíba ou Pernambuco, veja a situação da oferta no seu estado em Cirurgia de Mohs no Nordeste. Ao escolher, pergunte se o cirurgião tem formação formal em Mohs e se ele mesmo interpreta as lâminas durante a cirurgia.
Este portal é independente e não realiza atendimento. As indicações seguem os critérios descritos em Sobre o portal Cirurgia de Mohs.


