Por que a orelha e o lábio são áreas de alto risco?
As orelhas e os lábios ficam no alto do corpo, projetados para fora, e recebem sol direto durante toda a vida. São áreas que raramente recebem protetor solar e que o chapéu comum não cobre. Por isso concentram uma proporção grande de carcinomas espinocelulares (CEC) e basocelulares (CBC), sobretudo em homens, em pessoas de pele clara e em quem trabalhou décadas ao ar livre, uma realidade cotidiana em Fortaleza e no interior do Nordeste.
O que as torna diferentes das outras áreas do rosto é o comportamento do tumor. O carcinoma espinocelular da orelha e do lábio, principalmente do lábio inferior, tem taxa de metástase para os gânglios linfáticos mais alta que o CEC em outras partes da pele. As diretrizes internacionais, como as da NCCN, e os critérios de uso apropriado da cirurgia de Mohs classificam ambas as regiões como áreas de alto risco (área H), em que a Mohs é apropriada para praticamente qualquer tumor, independentemente do tamanho. Além disso, a pele nessas regiões está colada à cartilagem (na orelha) ou ao músculo (no lábio), com pouca espessura entre o tumor e as estruturas profundas, e a extensão invisível do tumor é frequente. Os critérios completos estão em Quando a cirurgia de Mohs é indicada (e quando não é).
Como o câncer de pele aparece na orelha?
A orelha tem relevos com nomes próprios, e cada um se comporta de um jeito. A hélice é a borda externa enrolada, o ponto mais alto e mais exposto, e é onde a maioria dos tumores aparece. A anti-hélice é a dobra interna paralela à hélice. A concha é a cavidade central que leva ao canal auditivo. Atrás da orelha há o sulco retroauricular, e embaixo o lóbulo, que não tem cartilagem.
Na hélice e na anti-hélice, o tumor costuma aparecer como um nódulo endurecido, uma ferida com crosta que não cicatriza ou uma placa áspera e descamativa que sangra ao ser tocada. No sulco atrás da orelha e na concha, lesões podem passar despercebidas por muito tempo, porque a pessoa não as vê no espelho, e chegam ao consultório maiores. Uma dor na orelha sem infecção, ou um "caroço" que dói ao deitar de lado, também merece avaliação. Os sinais gerais estão em Sinais de câncer de pele.
Como o câncer de pele aparece no lábio?
O lábio inferior recebe muito mais sol que o superior, porque fica voltado para cima, e concentra a grande maioria dos tumores labiais. O carcinoma espinocelular do lábio inferior costuma começar sobre uma queilite actínica, que é o dano solar crônico do lábio: ressecamento persistente, descamação, perda da nitidez da linha entre o lábio e a pele. Com o tempo, surge uma área endurecida, uma crosta que volta sempre ou uma ferida que não fecha.
O vermelhão é a parte vermelha e úmida do lábio, e a linha que o separa da pele é uma referência importante na reconstrução: um desalinhamento de um milímetro nessa linha é perceptível. O lábio também é essencial para falar, comer, beber sem derramar e sorrir, e é composto por um músculo circular, o orbicular da boca, que precisa ser preservado ou reconstruído para manter essas funções.
Por que a cirurgia de Mohs é a melhor indicação nessas áreas?
Na cirurgia convencional, o cirurgião retira o tumor com uma margem de segurança estimada e envia a peça ao laboratório, que examina apenas cerca de 0,1% a 1% da margem em cortes espaçados. Em áreas de alto risco, a chance de uma raiz do tumor escapar dessa amostragem é maior, e a margem "de segurança" retira tecido que, na orelha e no lábio, faz falta.
A cirurgia de Mohs resolve as duas questões. Como praticamente 100% da margem é examinada durante o procedimento, o cirurgião tem certeza de que o tumor foi removido antes de reconstruir. E como ele só avança onde há tumor, a cartilagem da orelha e o músculo do lábio são poupados sempre que não estão comprometidos. Na literatura, a Mohs alcança taxas de cura de 92% a 99% para o CEC primário, contra 92% a 95% da cirurgia convencional, e a diferença é mais expressiva nos tumores recidivados, com cerca de 90% contra cerca de 76% (Anais Brasileiros de Dermatologia, 2021). Para tumores de alto risco, como os do lábio e da orelha, esse controle é decisivo. Saiba mais sobre a técnica em Cirurgia de Mohs.
Como é feita a reconstrução da orelha?
A escolha depende do tamanho da ferida, da região da orelha e de a cartilagem ter sido ou não atingida. A tabela resume as opções mais usadas.
| Situação | Técnica de reconstrução | O que esperar |
|---|---|---|
| Ferida pequena de pele na hélice ou anti-hélice, cartilagem preservada | Sutura direta ou cicatrização por segunda intenção | Pontos por 7–10 dias ou curativos por 3–5 semanas; contorno mantido |
| Ferida na concha ou atrás da orelha | Cicatrização por segunda intenção ou enxerto de pele | Área côncava cicatriza bem sozinha; resultado plano e discreto |
| Ferida com cartilagem exposta | Enxerto de pele total sobre a cartilagem (após pequenas perfurações) ou retalho de pele vizinha | Enxerto retirado de trás da orelha ou da região da clavícula |
| Perda de parte da hélice (pele e cartilagem) | Ressecção em cunha com sutura direta ou retalhos que avançam a hélice | A orelha fica levemente menor, mas com contorno natural |
| Perda extensa | Reconstrução em etapas, com uso de cartilagem da própria orelha ou da costela, em conjunto com cirurgia plástica | Vários tempos cirúrgicos; discutido caso a caso |
A orelha tolera bem pequenas reduções de tamanho: uma diferença de alguns milímetros entre as duas orelhas raramente é percebida por outras pessoas. Já a cartilagem exposta por muito tempo pode infeccionar (pericondrite), o que exige atenção com o curativo e, por vezes, antibiótico.
Como é feita a reconstrução do lábio?
No lábio, o objetivo é manter o alinhamento do vermelhão, a abertura da boca e a função do músculo. Feridas pequenas, restritas à pele ou ao vermelhão, são fechadas com sutura direta ou com pequenos retalhos de mucosa que trazem tecido de dentro da boca para a superfície. Quando a queilite actínica se estende por todo o lábio, o cirurgião pode fazer, no mesmo tempo, a vermelhonectomia: a retirada de toda a faixa de vermelhão danificada, que é substituída pela mucosa de dentro do lábio, avançada para fora.
Quando o tumor atravessa toda a espessura do lábio, a ferida é fechada em camadas: mucosa, músculo e pele. Feridas de até cerca de um terço do lábio inferior costumam ser fechadas diretamente, em formato de cunha ou "V", com bom resultado. Para perdas maiores, usam-se retalhos que trazem tecido do lábio oposto ou das bochechas. O retalho de Abbe é o exemplo clássico: um segmento do lábio superior é girado para preencher o lábio inferior, permanecendo ligado por um pedículo durante duas a três semanas, com a boca parcialmente unida nesse período, até a separação em um segundo tempo. Parece assustador na descrição, mas é uma técnica consagrada, que recompõe músculo e sensibilidade e devolve a função labial. Reconstruções desse porte são planejadas com cirurgia plástica ou cirurgia de cabeça e pescoço. As opções gerais estão em Reconstrução após cirurgia de Mohs.
Preciso avaliar os gânglios do pescoço?
No carcinoma espinocelular de lábio e de orelha, principalmente em tumores maiores que 2 cm, espessos, pouco diferenciados, recidivados ou com invasão de nervos no laudo, o cirurgião examina os gânglios do pescoço e pode solicitar ultrassonografia ou outros exames de imagem. Um gânglio aumentado precisa ser investigado. Em casos selecionados, discute-se a biópsia de linfonodo sentinela e a radioterapia complementar, em conjunto com oncologia. Para o carcinoma basocelular, esse risco é muito baixo e, em geral, não exige investigação. Entenda o CEC em Carcinoma espinocelular.
Como é a recuperação?
A orelha e o lábio incham bastante nos primeiros dias, o que é esperado. Na orelha, evite dormir sobre o lado operado, use travesseiro que deixe a orelha livre e não use óculos apoiados sobre a ferida (uma haste pode ser adaptada ou o óculos pode ser preso com fita por alguns dias). Fones intra-auriculares e aparelhos auditivos devem ser evitados se a ferida estiver na concha. No lábio, prefira alimentos macios e mornos, evite abrir muito a boca, fale menos nos primeiros dias, não fume e mantenha a boca limpa com enxaguante suave conforme orientação. Sorrir e falar puxam a sutura; isso é normal e não a rompe, mas o repouso do lábio acelera a cicatrização.
Os pontos costumam sair entre 7 e 14 dias. A proteção solar do lábio com protetor labial FPS 30 ou mais e da orelha com chapéu de aba larga passa a ser hábito para a vida toda. Veja o guia completo em Pós-operatório da cirurgia de Mohs.
Perguntas frequentes
Câncer de pele na orelha é mais perigoso?
O carcinoma espinocelular da orelha tem risco de metástase para os gânglios maior que o CEC em outras áreas da pele, e por isso a orelha é classificada como área de alto risco. O carcinoma basocelular na orelha raramente se espalha, mas pode invadir a cartilagem. Em ambos, a Mohs é o tratamento indicado.
A cirurgia de Mohs na orelha deixa a orelha deformada?
Na maioria dos casos, não. A técnica remove apenas o tecido comprometido e preserva a cartilagem sempre que ela não está invadida. Quando parte da hélice precisa ser removida, a reconstrução mantém o contorno natural, e uma pequena redução de tamanho costuma passar despercebida.
Câncer de pele no lábio afeta a fala e a alimentação?
Durante a recuperação, falar e comer ficam desconfortáveis por alguns dias. A reconstrução é planejada para preservar o músculo do lábio e a abertura da boca, de modo que, após a cicatrização, a função labial retorna. Em reconstruções grandes, pode haver limitação temporária até o segundo tempo.
Preciso retirar gânglios do pescoço?
Só em casos selecionados. No carcinoma espinocelular de lábio ou orelha com fatores de risco, o cirurgião examina o pescoço e pode pedir exames de imagem. A retirada ou biópsia de gânglios é decidida caso a caso, com a oncologia. No carcinoma basocelular, isso praticamente nunca é necessário.
Quanto tempo leva a cirurgia de Mohs na orelha ou no lábio?
Como qualquer Mohs, de 2 a 5 horas, dependendo do número de camadas. A reconstrução é feita no mesmo dia na maior parte dos casos. Em reconstruções complexas do lábio, como o retalho de Abbe, há um segundo tempo cirúrgico algumas semanas depois.
Onde fazer a cirurgia de Mohs
A cirurgia de Mohs exige um cirurgião com formação específica na técnica e laboratório de congelação ao lado da sala cirúrgica. Por isso a oferta no Nordeste se concentra em poucas capitais. Fortaleza reúne parte dessa estrutura, com cirurgiões formados em centros de referência, e recebe pacientes do interior do Ceará e dos estados vizinhos. Se você mora no Piauí, Maranhão, Rio Grande do Norte, Paraíba ou Pernambuco, veja a situação da oferta no seu estado em Cirurgia de Mohs no Nordeste. Ao escolher, pergunte se o cirurgião tem formação formal em Mohs e se ele mesmo interpreta as lâminas durante a cirurgia.
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