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Imagem · para-medicos-margens-e-controle-histologico-01 · Comparação esquemática entre processamento vertical em fatias (bread-loafing) e processamento horizontal da Mohs, mostrando a fração da margem examinada
alt: “Comparação entre processamento vertical convencional e corte horizontal da cirurgia de Mohs” · 1600 px de largura · para-medicos-margens-e-controle-histologico-01-comparacao-entre-processamento-vertical-convencional-e-corte.webp
O que "margem livre" significa em cada método
Todo cirurgião que trata câncer de pele lê laudos com a frase "margens cirúrgicas livres". O que essa frase significa, em termos de probabilidade de que o tumor foi realmente removido, depende inteiramente de como a peça foi processada. Esse é um ponto pouco discutido na formação médica geral e é o fundamento técnico da cirurgia de Mohs.
A peça de uma excisão convencional é uma elipse de pele com o tumor ao centro. No laboratório, ela é fixada em formol, incluída em parafina e seccionada transversalmente em fatias, como um pão de forma, tipicamente a intervalos de 2 a 4 mm. De cada fatia, corta-se uma lâmina de poucos micrômetros. O patologista vê, portanto, uma série de cortes verticais que atravessam o tumor e as margens laterais e profunda em pontos separados por milímetros. Entre uma fatia e outra, a margem não é examinada.
A geometria explica o número. Se cada lâmina tem cerca de 5 micrômetros de espessura e as fatias estão a 3 mm de distância, a fração da margem lateral efetivamente vista é da ordem de 5 micrômetros a cada 3.000, ou seja, algo próximo de 0,2%. Com fatias mais finas e mais numerosas o número sobe, mas permanece na faixa de 0,1% a 1%. Uma extensão tumoral fina, como um cordão de CBC esclerodermiforme ou um prolongamento perineural de CEC, pode passar entre duas fatias e ser reportada como "margem livre". A recidiva que aparece dois ou três anos depois na cicatriz é, com frequência, esse tumor que nunca foi visto.
Processamento horizontal: o princípio da Mohs
A cirurgia de Mohs muda a geometria. A camada é retirada com bisel de aproximadamente 45 graus, em formato de pires, o que permite achatar a peça de modo que a margem periférica (a borda inclinada) e a margem profunda (a base) fiquem no mesmo plano. A peça é dividida em setores, cada borda é marcada com tintas de cores diferentes e o cirurgião desenha um mapa que reproduz a orientação exata da peça em relação à ferida.
Os cortes são então feitos horizontalmente, a partir da face profunda, no criostato. O primeiro corte completo exibe toda a margem profunda e, graças ao bisel achatado, toda a margem periférica ao redor, em uma única lâmina. O que se examina não é uma amostra da margem: é a margem. Qualquer foco de tumor que toque a borda da lâmina está, por definição, no limite da ressecção, e sua posição no mapa indica em qual setor da ferida ele se encontra.
| Característica | Processamento convencional (vertical) | Mohs (horizontal) |
|---|---|---|
| Orientação do corte | Perpendicular à superfície, em fatias seriadas | Paralelo à superfície, a partir da face profunda |
| Fração da margem examinada | ~0,1% a 1% | ~100% |
| Fixação | Formol, parafina | Congelação (criostato) no intraoperatório |
| Tempo até o resultado | Dias | 40 a 60 minutos por camada |
| Quem interpreta | Patologista | O próprio cirurgião de Mohs, com formação em dermatopatologia da técnica |
| Correlação com a ferida | Aproximada (orientação por fio ou tinta) | Precisa, por mapa setorizado |
| Remoção adicional | Nova cirurgia, com ampliação de toda a margem | Apenas do setor comprometido, no mesmo ato |
| Informação sobre o centro do tumor | Completa (espessura, grau, subtipo) | Depende de envio do debulking para parafina |
Congelação: o que permite e o que exige
O exame em congelação é o que torna a análise intraoperatória possível. O tecido é congelado em segundos, cortado no criostato a poucos micrômetros, corado (hematoxilina-eosina ou azul de toluidina) e está pronto para leitura em menos de uma hora. A qualidade do corte é o fator limitante: a peça precisa estar perfeitamente achatada e a epiderme precisa aparecer contínua em toda a periferia da lâmina para que se possa afirmar que a margem periférica está representada. Uma lâmina com epiderme ausente em um setor é uma lâmina incompleta, e o cirurgião de Mohs é treinado para repetir o corte ou aprofundar antes de dar o setor como livre.
O CBC e o CEC convencionais são bem reconhecíveis em congelação. Marcadores imuno-histoquímicos rápidos podem ser usados em casos selecionados, como CEC pouco diferenciado, tumores anexiais e melanoma in situ, com custo e tempo adicionais.
O mapa de Mohs
O mapa é um desenho da ferida com a peça sobreposta, dividida em setores numerados, com as cores das tintas registradas em cada borda. Quando a lâmina mostra tumor em uma região, o cirurgião localiza a posição no mapa e retorna ao paciente para retirar tecido apenas naquele setor, com nova marcação e novo mapa. O processo se repete até que todos os setores estejam livres.
O mapa é também um documento clínico. No relatório enviado ao médico assistente, ele mostra onde estava a extensão subclínica, quantas camadas foram necessárias e em que direção o tumor crescia, o que orienta a vigilância da cicatriz. Um CBC de asa nasal que precisou de três camadas em direção ao sulco nasogeniano tem risco de recidiva naquela direção, e o médico que acompanha o paciente em outra cidade pode examinar com esse dado em mãos. O fluxo de retorno está em Como encaminhar um paciente para cirurgia de Mohs.
Limitações do controle em congelação
Nenhum método é absoluto, e a Mohs tem limitações reconhecidas que o médico encaminhador deve conhecer.
Tumores descontínuos. A Mohs pressupõe crescimento contíguo. Tumores com focos satélites separados por tecido normal, como algumas recidivas em campo irradiado, alguns CEC em pele com campo de cancerização extenso e certos tumores raros, podem ter focos fora da área examinada. Isso não anula a técnica, mas justifica margens adicionais e seguimento atento.
Melanoma invasivo. A identificação de melanócitos atípicos isolados em congelação é difícil, e a distinção entre melanócitos de pele fotolesada e extensão de lentigo maligno exige imuno-histoquímica. Por isso, para melanoma in situ e lentigo maligno usam-se técnicas modificadas (Mohs com imuno-histoquímica rápida ou margens em parafina), e para melanoma invasivo o tratamento padrão continua sendo excisão ampla com margens definidas pelo Breslow, com avaliação de linfonodo sentinela quando indicada.
Artefatos de congelação. O congelamento pode produzir distorção celular, vacuolização e perda de detalhe nuclear, além de dificuldades específicas em tecido adiposo, cartilagem e osso. Estruturas benignas (folículos pilosos em corte tangencial, hiperplasia basaloide, glândulas sebáceas, cicatriz com inflamação) podem simular tumor e exigem experiência para interpretar. Casos duvidosos podem ser resolvidos com envio de tecido para parafina.
Informação sobre o tumor central. Como a Mohs examina a periferia e a base, dados do centro do tumor (espessura máxima, grau de diferenciação, invasão linfovascular) dependem da biópsia inicial ou do envio do debulking para parafina. Em CEC de alto risco, esse envio é rotina, para permitir o estadiamento descrito em Carcinoma espinocelular de alto risco.
Disponibilidade. A técnica exige cirurgião com formação específica, laboratório anexo e técnico de histologia treinado, o que restringe a oferta. No Nordeste, os serviços se concentram em Fortaleza e Recife.
Slow Mohs e margens em parafina
Quando a congelação é inadequada, usa-se a chamada Mohs lenta (slow Mohs) ou Mohs em parafina: a camada é retirada, mapeada e processada com a mesma orientação horizontal, mas fixada em formol e incluída em parafina, com leitura em 24 a 72 horas. A ferida permanece com curativo até o resultado, e a reconstrução é feita quando as margens estão livres. A técnica é usada principalmente para melanoma in situ e lentigo maligno (com imuno-histoquímica para melanócitos), dermatofibrossarcoma protuberans (com CD34), carcinoma sebáceo, carcinoma anexial microcístico e tumores em que a morfologia em congelação é insuficiente. O mesmo princípio de avaliação completa das margens pode ser aplicado com processamento em parafina de peças de excisão convencional com técnica específica, quando o cirurgião e o patologista trabalham em coordenação.
Margens exíguas ou comprometidas no laudo: o que fazer
Este é um dos cenários mais frequentes de encaminhamento e de dúvida. O raciocínio segue em etapas.
Primeiro, ler o laudo com atenção. "Margem comprometida" (tumor tocando a borda) e "margem exígua" (tumor a menos de 1 mm, sem tocar) têm implicações diferentes. Identificar qual margem (lateral, profunda, qual lado, se orientada) e o subtipo. Um CBC nodular com margem lateral exígua em área L tem probabilidade de recidiva bem menor que um CBC infiltrativo com margem profunda comprometida no nariz.
Segundo, considerar que a margem comprometida em laudo convencional é, na prática, uma estimativa. Se o método examina uma fração pequena da margem e ainda assim encontrou tumor na borda, a probabilidade de tumor residual é alta. O inverso não vale: margem livre no bread-loafing não exclui tumor residual, sobretudo em subtipos agressivos.
| Situação | Conduta sugerida |
|---|---|
| CBC nodular ou superficial, área L, margem lateral exígua, paciente imunocompetente | Observação com seguimento clínico rigoroso é aceitável; discutir com o paciente; reexcisão se houver dúvida ou preferência |
| CBC nodular, área M ou L, margem comprometida | Reexcisão com margens controladas; Mohs é apropriada pelos AUC para tumor com margem comprometida em área M e, em tumores maiores, em área L |
| CBC de qualquer subtipo em área H, margem comprometida ou exígua | Mohs. Extensão subclínica imprevisível e tecido escasso para reconstrução |
| CBC de subtipo agressivo, qualquer área, margem comprometida | Mohs; a excisão às cegas repetida tem taxa de falha alta nesses subtipos |
| Margem profunda comprometida | Mohs ou reexcisão com controle das margens; a margem profunda é a mais difícil de avaliar clinicamente e a mais associada a recidiva profunda e invasão de estruturas |
| CEC invasivo com margem comprometida | Reexcisão com margens controladas sem demora; margem comprometida em CEC é fator de risco para recidiva e metástase; considerar estadiamento |
| CEC in situ (Bowen) com margem lateral comprometida, área L | Reexcisão ou tratamento de campo; Mohs em área H |
| Margem comprometida após radioterapia prévia ou em recidiva | Mohs; tumor em campo irradiado ou cicatricial tem bordas imprevisíveis |
| Paciente sem condições cirúrgicas | Discutir radioterapia adjuvante |
Terceiro, agir sem demora. A reexcisão precoce, com o sítio ainda identificável e antes que o tecido cicatricial dificulte a localização, é mais simples que a cirurgia de uma recidiva anos depois. A foto pré-operatória da lesão original é o documento mais útil nesse momento.
Quarto, informar o paciente com clareza. O paciente que recebe alta com "margem comprometida" e "vamos observar" precisa entender o risco e concordar com o plano. O mesmo vale para o paciente encaminhado para Mohs: ele precisa saber que a cirurgia vai começar na cicatriz e pode encontrar tumor além do esperado.
Os critérios de encaminhamento para esses cenários estão sistematizados em Quando encaminhar para cirurgia de Mohs, e o racional de risco por tipo de tumor em Carcinoma basocelular de alto risco.
Perguntas frequentes
Margem de 4 mm é suficiente para CBC?
Para CBC de baixo risco (nodular ou superficial, pequeno, bordas definidas, área L ou M), 4 mm de margem clínica obtém margens histológicas livres na maioria dos casos e é a recomendação das diretrizes. Para CBC de alto risco não há margem clínica que garanta ressecção completa de forma previsível, e a recomendação é controle histológico completo das margens.
Posso pedir ao patologista para examinar a peça de forma mais completa?
Sim. Cortes mais frequentes e a inclusão das margens em face (en face) aumentam a fração examinada. A técnica exige combinação prévia entre cirurgião e laboratório, orientação da peça e mais lâminas, e ainda assim não atinge a cobertura da Mohs. É uma alternativa razoável quando a Mohs não está disponível.
Mohs serve para melanoma?
Para melanoma in situ e lentigo maligno, sim, com técnicas modificadas (imuno-histoquímica ou margens em parafina), com taxas de cura na literatura em torno de 98% contra 83% a 85% da excisão convencional. Para melanoma invasivo, o tratamento padrão é a excisão ampla com margens definidas pelo Breslow e estadiamento conforme as diretrizes.
O laudo veio "margens livres" após excisão convencional de CBC esclerodermiforme no nariz. Está resolvido?
Não necessariamente. Margem livre em processamento convencional significa que as fatias examinadas não mostraram tumor na borda, não que a margem inteira está livre. Em subtipo agressivo e área H, o seguimento deve ser rigoroso e a discussão de Mohs para a cicatriz pode ser apropriada quando a margem descrita é exígua.
Serviços de referência para encaminhamento
Ao encaminhar um paciente para cirurgia de Mohs, verifique se o serviço reúne três condições: cirurgião com formação formal na técnica, laboratório de congelação anexo à sala cirúrgica e leitura das lâminas pelo próprio cirurgião. No Nordeste, essa estrutura se concentra em poucas capitais. Fortaleza conta com cirurgiões formados em centros de referência e recebe encaminhamentos de todo o Ceará e dos estados vizinhos. O conjunto de informações que agiliza a avaliação (laudo, foto, comorbidades e medicações) está descrito em Como encaminhar um paciente para cirurgia de Mohs.
Este portal é independente e não intermedeia encaminhamentos. As indicações seguem os critérios descritos em Sobre o portal Cirurgia de Mohs.
Referências
- Cirurgia micrográfica de Mohs: revisão de indicações, técnica, resultados e considerações. An Bras Dermatol. 2021.
- Ad Hoc Task Force; Connolly SM, Baker DR, Coldiron BM, et al. AAD/ACMS/ASDSA/ASMS 2012 appropriate use criteria for Mohs micrographic surgery. J Am Acad Dermatol. 2012;67(4):531-550.
- National Comprehensive Cancer Network. NCCN Clinical Practice Guidelines in Oncology: Basal Cell Skin Cancer. Versão vigente.
- National Comprehensive Cancer Network. NCCN Clinical Practice Guidelines in Oncology: Squamous Cell Skin Cancer. Versão vigente.
- Rowe DE, Carroll RJ, Day CL Jr. Long-term recurrence rates in previously untreated (primary) basal cell carcinoma: implications for patient follow-up. J Dermatol Surg Oncol. 1989;15(3):315-328.
- van Loo E, Mosterd K, Krekels GA, et al. Surgical excision versus Mohs' micrographic surgery for basal cell carcinoma of the face: a randomised clinical trial with 10 year follow-up. Eur J Cancer. 2014;50(17):3011-3020.
