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Cirurgia de Mohs. Especialidade em Câncer de Pele.

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Melanoma in situ e Mohs: lentigo maligno, slow Mohs, imuno-histoquímica e margens

Melanoma in situ e lentigo maligno podem ser tratados com cirurgia de Mohs quando se utiliza imuno-histoquímica em congelação (MART-1/Melan-A, SOX10) ou margens em parafina por estágios (slow Mohs), com controle local em torno de 98% na literatura, contra 83% a 85% da excisão convencional com margem de 5 mm. A indicação concentra-se em lesões da cabeça e do pescoço, com bordas mal definidas ou recidivadas, e a decisão é multidisciplinar.

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Revisado por médico. Conteúdo produzido pela equipe editorial Cirurgia de Mohs e revisado por médico dermatologista com formação em cirurgia micrográfica de Mohs. Este portal é independente: não realiza consultas, não agenda cirurgias e não responde dúvidas clínicas individuais.

O problema clínico: lentigo maligno na face fotoexposta

O lentigo maligno é o subtipo de melanoma in situ que surge sobre pele com dano actínico crônico, tipicamente na face, no couro cabeludo e no pescoço de pacientes acima dos 60 anos. No Nordeste, com exposição solar cumulativa intensa, é diagnóstico frequente em trabalhadores rurais, pescadores e em qualquer paciente de fototipo baixo com décadas de sol. Sua história natural inclui progressão para lentigo maligno melanoma (invasivo) em uma fração dos casos ao longo de anos, o que justifica o tratamento, e sua biologia explica a dificuldade cirúrgica: crescimento radial lentiginoso, extensão subclínica frequentemente centimétrica, bordas clinicamente indefinidas e coexistência com hiperplasia melanocítica actínica da pele vizinha, que torna a distinção entre margem tumoral e pele solar-danificada um exercício de julgamento histológico.

As duas consequências práticas são que a margem clínica de 5 mm é insuficiente em proporção substancial dos casos e que a excisão em áreas de tecido escasso, como nariz, pálpebra e orelha, custa função quando a margem é ampliada às cegas. O artigo para pacientes sobre o tema está em Lentigo maligno; aqui a abordagem é técnica.

Margens recomendadas pelas diretrizes

DiretrizMelanoma in situ / lentigo malignoObservação
AAD (2019)Margem clínica de 0,5 a 1 cmPara lentigo maligno, considerar margens maiores que 0,5 cm ou técnicas com avaliação completa das margens (Mohs com IHQ, slow Mohs, excisão em estágios)
NCCN (vigente)0,5 a 1 cmExcisão em estágios ou Mohs com avaliação completa da margem periférica e profunda como alternativa para lentigo maligno e melanoma in situ em áreas anatômicas críticas
ESMO / EDF europeias0,5 cm; até 1 cm para lentigo malignoRecomendam técnicas de controle histológico completo para lentigo maligno de face
Critérios de uso apropriado de Mohs (2012)Apropriado em área H e M; apropriado em área L acima de 2 cmMelanoma invasivo não contemplado

A margem de 5 mm, historicamente derivada de consenso de 1992, foi questionada por séries que mediram a margem necessária para clareamento histológico: em estudos de excisão em estágios, cerca de 20% a 30% dos melanomas in situ da cabeça e pescoço exigiram mais de 6 mm e uma parcela exigiu mais de 9 mm, o que motivou a ampliação para 5 a 10 mm nas diretrizes atuais e a recomendação explícita de técnicas com avaliação completa das margens.

Por que a congelação convencional é limitada para melanócitos

A hematoxilina-eosina em congelação, padrão da Mohs para CBC e CEC, tem desempenho inferior para melanócitos por razões técnicas e biológicas. O congelamento causa artefatos de retração citoplasmática que fazem ceratinócitos basais mimetizarem melanócitos atípicos ("halo cells") e que ocultam a atipia nuclear real. Melanócitos isolados, dispersos ao longo da junção, são difíceis de contar e de distinguir da hiperplasia melanocítica actínica de fundo, que na pele fotodanificada da face pode chegar a densidades elevadas. Além disso, a extensão pagetoide e o acometimento anexial, marcadores de lentigo maligno, são de identificação inconsistente em H-E congelada.

Séries históricas de Mohs para melanoma exclusivamente com H-E em congelação relataram concordância variável com a parafina e taxas de recidiva maiores que as obtidas posteriormente com imuno-histoquímica. Essa limitação motivou dois caminhos que hoje coexistem: a imuno-histoquímica rápida em congelação e o slow Mohs em parafina.

Imuno-histoquímica em congelação: MART-1/Melan-A e SOX10

Protocolos de imuno-histoquímica rápida, com tempo total de 20 a 60 minutos por bateria de lâminas, permitem marcar melanócitos nos cortes de congelação durante a cirurgia e são hoje o padrão nos centros que realizam Mohs para melanoma in situ.

MART-1/Melan-A é o anticorpo mais utilizado. Marcador citoplasmático, produz sinal intenso e de leitura fácil, evidenciando melanócitos isolados e em ninhos ao longo da junção e nos anexos. A limitação é a marcação de ceratinócitos que fagocitaram pigmento e de pseudoninhos na pele actínica, o que pode superestimar a densidade melanocítica; a interpretação exige comparação com a densidade de fundo do paciente, obtida em corte de pele distante da lesão, e critérios morfológicos (confluência, ninhos, extensão anexial, atipia).

SOX10 é marcador nuclear, com especificidade superior para linhagem melanocítica, sem marcação de ceratinócitos pigmentados. A leitura nuclear facilita a contagem e a avaliação de confluência; tem sido adotado isoladamente ou em conjunto com MART-1. MITF é alternativa nuclear menos difundida. HMB-45 tem sensibilidade menor no lentigo maligno e uso restrito.

Os critérios histológicos de margem comprometida mais utilizados em congelação com IHQ incluem: confluência de melanócitos ao longo da junção (mais de nove melanócitos adjacentes ou densidade superior a cerca de um melanócito por ceratinócito basal), formação de ninhos, extensão pagetoide, descida anexial e atipia nuclear evidente. A densidade de fundo é o parâmetro de comparação, e a variabilidade interobservador existe; a experiência do cirurgião-patologista de Mohs com melanócitos é um pré-requisito. A infraestrutura de laboratório está descrita em Margens cirúrgicas e controle histológico.

Slow Mohs e excisão em estágios com margens em parafina

Quando a imuno-histoquímica rápida não está disponível, ou por preferência do serviço, a alternativa é o controle histológico completo em parafina, com o paciente aguardando o resultado entre os estágios.

No slow Mohs (Mohs em parafina), a peça é orientada, mapeada e processada como na Mohs convencional, com a margem periférica e profunda em plano único, mas os cortes são fixados e incluídos em parafina, corados com H-E e IHQ, e lidos em 24 a 48 horas. O defeito recebe curativo e o paciente retorna para nova camada nas áreas positivas ou para reconstrução quando as margens estão livres.

Nas excisões em estágios (técnicas "square", "spaghetti", "perimeter"), a lesão é contornada com uma tira estreita de pele em toda a periferia, que é processada em parafina com orientação; a lesão central permanece no lugar até que a periferia esteja livre, quando se realiza a excisão central com margem profunda e a reconstrução. As variantes diferem na forma da tira e na avaliação da margem profunda.

As duas estratégias oferecem a qualidade histológica da parafina, com IHQ padrão, ao custo de mais tempo, defeito aberto por dias e mais de uma sessão, o que pesa para pacientes que viajam de outros estados para Fortaleza. Na prática, o serviço define a técnica conforme a disponibilidade de IHQ rápida, a complexidade da lesão e a logística do paciente, e a taxa de controle local nas séries publicadas é comparável entre Mohs com IHQ e excisão em estágios.

Taxas de recidiva na literatura

TécnicaRecidiva localFontes principais
Excisão convencional, margem de 5 mm8% a 20% em séries de lentigo maligno; ~15% a 17% em seguimento longoAnais Bras Dermatol 2021 (controle 83% a 85%); séries históricas
Excisão em estágios com parafina1% a 5%Séries de excisão em estágios, seguimento de 3 a 9 anos
Mohs com IHQ (MART-1, SOX10)~0,5% a 2% (controle local ~98%)Séries de centros de Mohs com mais de 1.000 casos, seguimento médio de 4 a 10 anos
Slow Mohs1% a 4%Séries europeias e norte-americanas

Estudos de bases populacionais e coortes institucionais compararam Mohs e excisão ampla para melanoma in situ e para melanoma invasivo fino e não encontraram diferença de sobrevida específica, o que é esperado dada a baixa letalidade do melanoma in situ; a vantagem da Mohs está no controle local, na preservação de tecido e na redução de reoperações. A literatura é predominantemente retrospectiva; não há ensaio randomizado que compare as técnicas para lentigo maligno, e as diretrizes reconhecem essa limitação ao recomendar as técnicas com avaliação completa das margens como alternativa, não como padrão obrigatório. A síntese das evidências para outros tumores está em Mohs versus excisão convencional.

Melanoma invasivo fino na face: uma área de controvérsia

O uso de Mohs para melanoma invasivo, mesmo fino (Breslow até 1 mm), permanece controverso e não é recomendado como padrão pelas diretrizes AAD e NCCN, que mantêm a excisão ampla com margens de 1 cm para Breslow até 1 mm e de 1 a 2 cm para 1,01 a 2 mm, e a avaliação de biópsia de linfonodo sentinela conforme o estadiamento (discutir a partir de T1b, e em T1a com fatores adversos).

Os argumentos favoráveis à Mohs com IHQ em melanoma invasivo fino de face incluem a extensão subclínica in situ periférica, que é o componente que costuma comprometer margens convencionais, a preservação de tecido em áreas críticas e séries institucionais com recidiva local baixa e sobrevida equivalente. Os argumentos contrários incluem a dificuldade de avaliar profundidade e regressão em congelação, a ausência de estudos prospectivos, a incerteza sobre a avaliação da margem profunda no componente invasivo e a necessidade de integrar o linfonodo sentinela ao planejamento, que deve preceder ou coincidir com a excisão ampla para não alterar a drenagem linfática.

A posição adotada neste serviço é a de seguir as diretrizes: melanoma invasivo é tratado com excisão ampla com margens padronizadas e avaliação de linfonodo sentinela quando indicada, em conjunto com a oncologia cirúrgica. Em cenários selecionados de melanoma invasivo fino de face, em que a margem padronizada implicaria sacrifício funcional relevante, a Mohs com IHQ ou o slow Mohs para o componente periférico, associados à excisão do componente central com margem profunda em parafina e ao linfonodo sentinela quando aplicável, podem ser discutidos em reunião multidisciplinar, com registro da decisão compartilhada.

Aspectos práticos do encaminhamento

O encaminhamento de melanoma in situ e lentigo maligno para avaliação de Mohs deve incluir o laudo completo da biópsia (idealmente incisional ou excisional parcial ampla, evitando shave superficial, que subestima invasão), com Breslow quando houver componente invasivo, fotografia clínica e dermatoscópica, e a localização precisa. A lesão deve permanecer identificável; a biópsia excisional com margens estreitas em face dificulta a delimitação do campo. A microscopia confocal de reflectância, quando disponível, e a dermatoscopia com luz de Wood ajudam a estimar a extensão subclínica no pré-operatório. A avaliação de risco de invasão oculta (lesões maiores que 2 cm, espessadas, nodulares, com história longa) orienta a decisão sobre biópsias adicionais ou excisão com margem profunda antes do planejamento.

Após margens livres, a reconstrução segue os mesmos princípios da Mohs para carcinomas, com preferência por fechamentos que não distorçam o campo para vigilância, como descrito em Reconstrução após Mohs. O seguimento inclui exame de pele total, avaliação da cicatriz com dermatoscopia e palpação linfonodal a cada 6 a 12 meses por pelo menos cinco anos, e o paciente é orientado sobre o risco de segundo melanoma e de carcinomas em campo actínico. Os critérios gerais de encaminhamento estão em Quando encaminhar para cirurgia de Mohs.

Perguntas frequentes

Mohs é indicada para melanoma in situ em tronco e membros?

Pelos critérios de uso apropriado, é apropriada em área L apenas para lesões maiores que 2 cm; para lesões menores é classificada como incerta. Na prática, a excisão convencional com margem de 5 a 10 mm resolve a maioria dos melanomas in situ de tronco e membros com bom controle, e a Mohs é reservada a lesões grandes, recidivadas ou com bordas indefinidas.

A imuno-histoquímica em congelação é confiável?

Sim, com protocolo validado e leitor experiente. MART-1 e SOX10 em congelação têm concordância elevada com a parafina em estudos comparativos, e as séries de Mohs com IHQ mostram controle local em torno de 98%. A leitura exige comparação com a densidade melanocítica de fundo e critérios morfológicos definidos.

Qual a diferença entre slow Mohs e excisão em estágios?

Ambas usam parafina e controle completo da periferia. No slow Mohs, a peça é processada em plano único com margem periférica e profunda, como na Mohs convencional; nas excisões em estágios, uma tira periférica é removida e examinada antes da excisão central. As taxas de recidiva são comparáveis e a escolha depende da rotina do serviço.

O linfonodo sentinela é indicado no melanoma in situ?

Não. Não há indicação de biópsia de linfonodo sentinela no melanoma in situ. A discussão se aplica ao melanoma invasivo a partir de T1b, e em T1a com fatores adversos, e deve preceder ou coincidir com a excisão ampla.

Serviços de referência para encaminhamento

Ao encaminhar um paciente para cirurgia de Mohs, verifique se o serviço reúne três condições: cirurgião com formação formal na técnica, laboratório de congelação anexo à sala cirúrgica e leitura das lâminas pelo próprio cirurgião. No Nordeste, essa estrutura se concentra em poucas capitais. Fortaleza conta com cirurgiões formados em centros de referência e recebe encaminhamentos de todo o Ceará e dos estados vizinhos. O conjunto de informações que agiliza a avaliação (laudo, foto, comorbidades e medicações) está descrito em Como encaminhar um paciente para cirurgia de Mohs.

Este portal é independente e não intermedeia encaminhamentos. As indicações seguem os critérios descritos em Sobre o portal Cirurgia de Mohs.

Referências

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