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Cirurgia de Mohs. Especialidade em Câncer de Pele.

Área médica · conteúdo técnico

Reconstrução após Mohs: princípios, subunidades estéticas e escolha do retalho

A reconstrução após Mohs é planejada apenas depois da confirmação histológica de margens livres, com base no tamanho, na profundidade e na subunidade estética do defeito. A escolha segue a escada reconstrutiva (segunda intenção, fechamento primário, retalho local, enxerto, retalho regional), com preferência pela opção mais simples que restaure contorno e função, e co-manejo com cirurgia plástica ou oculoplástica em defeitos complexos.

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13 min de leitura

Revisado por médico. Conteúdo produzido pela equipe editorial Cirurgia de Mohs e revisado por médico dermatologista com formação em cirurgia micrográfica de Mohs. Este portal é independente: não realiza consultas, não agenda cirurgias e não responde dúvidas clínicas individuais.

Princípios gerais

O primeiro princípio é temporal: o defeito só é reconstruído após a leitura da última camada com margens livres. Reconstruir sobre margem duvidosa compromete a localização de uma eventual recidiva e inutiliza a principal vantagem da técnica. Esse princípio tem uma consequência prática para o médico encaminhador: o tamanho do defeito não é previsível na consulta, e o paciente deve ser orientado sobre a possibilidade de reconstrução mais ampla do que a lesão clínica sugere, sobretudo em subtipos infiltrativos e tumores recidivados, conforme discutido em Carcinoma basocelular de alto risco.

O segundo é funcional: a prioridade é a preservação ou restauração da função (oclusão palpebral, permeabilidade da via aérea nasal, competência oral, drenagem lacrimal), seguida do contorno e, por fim, da cor e textura. Uma cicatriz visível com pálpebra competente é preferível a uma cicatriz discreta com ectrópio.

O terceiro é o respeito às subunidades estéticas e às linhas de tensão da pele relaxada. Incisões colocadas nas junções entre subunidades e paralelas às linhas de tensão produzem cicatrizes menos perceptíveis e menos sujeitas a alargamento.

O quarto é a substituição por tecido semelhante: pele de espessura, cor, textura e densidade de anexos comparáveis, o que favorece retalhos locais sobre enxertos distantes na face.

Subunidades estéticas: Burget e Menick

Burget e Menick sistematizaram o conceito de subunidades para a reconstrução nasal, e o princípio foi estendido ao restante da face. O nariz é dividido em dorso, laterais, ponta, asas, columela e triângulos moles; a face, em fronte, têmporas, regiões periorbitárias, bochechas (com subunidades medial, zigomática, bucal e lateral), lábio superior (filtro e unidades laterais), lábio inferior, mento, nariz e orelhas.

A regra clássica propõe que, quando o defeito ocupa mais de 50% de uma subunidade convexa (ponta, asa, dorso), a excisão da pele remanescente da subunidade e a reconstrução completa dela produzem resultado superior ao remendo parcial, porque as cicatrizes ficam nas junções, onde a mudança de plano e a sombra as disfarçam, e a contração do retalho se distribui uniformemente. A regra é uma orientação, não um dogma: em pacientes idosos com pele redundante e com fotodano, o remendo cuidadoso pode ser aceitável, e a decisão pondera morbidade, número de tempos cirúrgicos e expectativa do paciente.

Na prática do cirurgião de Mohs, o conceito orienta três decisões: a direção das incisões, a conversão de um defeito irregular em um defeito que respeite a subunidade, e a escolha entre técnicas que substituem parte da subunidade (retalho bilobado, enxerto) e técnicas que a substituem inteira (paramediano frontal).

Escada reconstrutiva aplicada ao defeito pós-Mohs

A escada reconstrutiva ordena as opções por complexidade crescente. Na reconstrução facial pós-Mohs, a lógica não é subir degrau a degrau, mas escolher o degrau mais baixo que atenda aos requisitos funcionais e estéticos do defeito específico, o que às vezes significa optar por um retalho quando o fechamento primário seria possível, mas distorceria uma margem livre.

DegrauIndicação típicaVantagensLimitações
Segunda intençãoDefeitos em superfícies côncavas (canto medial, concha, sulco alar-facial, têmpora, região pré-auricular), couro cabeludo com periósteo íntegro, pacientes sem condições para reconstruçãoSem cicatriz adicional, permite vigilância direta do leito, custo baixo3–8 semanas de curativo; contração distorce margens livres (pálpebra, asa nasal, vermelhão); resultado inferior em superfícies convexas
Fechamento primárioDefeitos com tecido adjacente móvel, orientáveis ao longo das linhas de tensãoCicatriz linear, tempo curto, previsívelTensão excessiva causa alargamento, necrose de borda e distorção de estruturas livres
Retalho localDefeitos de tamanho intermediário em nariz, bochecha, fronte, lábio, mentoTecido semelhante, vascularização própria, resultado em tempo únicoCicatrizes adicionais, edema e trapdoor, curva de aprendizado
Enxerto de pele totalDefeitos superficiais amplos, ponta nasal e asa em casos selecionados, pálpebra inferior, hélice, pacientes que preferem procedimento menorSimplicidade, sem incisão distante na faceDiscrepância de cor e textura, contração, dependência do leito, contraindicado sobre cartilagem ou osso desnudos sem perfuração ou periósteo
Retalho interpolado / regionalDefeitos de espessura total ou de subunidade inteira do nariz, lábio, pálpebra; defeitos de orelha com perda de cartilagemReconstrução de subunidade completa, tecido abundanteDois ou três tempos, pedículo temporário, morbidade do sítio doador

Cicatrização por segunda intenção

Zitelli descreveu a previsibilidade do resultado da segunda intenção conforme a topografia: superfícies côncavas (canto medial, sulco alar-facial, concha, fossa temporal) cicatrizam com resultado excelente; superfícies planas (fronte, bochecha) com resultado satisfatório; superfícies convexas (ponta nasal, malar, mento, hélice) com resultado inferior, frequentemente deprimido e hipopigmentado. A contração centrípeta é a força que define o desfecho, e por isso a técnica deve ser evitada perto de margens livres suscetíveis a distorção.

Indicações adicionais são o leito com suspeita de margem inadequada em que se opta por vigilância antes de reconstrução definitiva, o paciente anticoagulado com alto risco de hematoma sob retalho, e o paciente que não tolera ou não deseja procedimento adicional. Um curativo oclusivo úmido com vaselina e troca diária é suficiente na maioria dos casos. Uma variante útil é a combinação: fechamento primário parcial (púrsico) para reduzir a área e segunda intenção para o remanescente.

Fechamento primário

É o método de escolha sempre que a elasticidade do tecido adjacente permite aproximação sem tensão e sem distorção. O desenho elíptico com relação comprimento-largura de aproximadamente 3:1 evita cones de pele nas extremidades; alternativas incluem o fechamento em M-plastia para encurtar a cicatriz e o fechamento em S para acompanhar superfícies convexas. O descolamento no plano subcutâneo redistribui a tensão, e a sutura em duas camadas com pontos dérmicos absorvíveis e pontos cutâneos finos reduz o alargamento. Na face, a orientação da elipse deve seguir as linhas de tensão e as junções de subunidade, mesmo que isso exija uma cicatriz mais longa.

Retalhos locais: quando cada desenho é escolhido

Os retalhos locais são classificados pelo movimento predominante do tecido: avanço, rotação e transposição. Todos são retalhos randômicos, cuja perfusão depende do plexo subdérmico, com relação comprimento-base geralmente até 3:1 na face pela vascularização favorável.

RetalhoMovimentoDefeitos típicosObservações técnicas
Avanço (unilateral, bilateral, em H, em T, em ilha)Deslizamento linearFronte, sobrancelha, lábio superior, hélice, bochecha medialTriângulos de Burow removem redundância; cicatrizes em linhas horizontais da fronte e no sulco nasolabial
RotaçãoArco em torno de um pivôBochecha, mento, couro cabeludo, canto medial (retalho glabelar)Base ampla, boa vascularização; back-cut reduz tensão; na bochecha, retalho de Mustardé cérvico-facial para defeitos grandes
TransposiçãoSalto sobre pele íntegraNariz, bochecha, têmpora, canto medialRedistribui tensão para o sítio doador; grupo inclui bilobado, romboide e nasolabial
Bilobado (Zitelli)Transposição duplaPonta e terço inferior nasal, defeitos de 1–1,5 cmLobos com ângulos de aproximadamente 45° cada (90° total), pivô lateral ao defeito, descolamento amplo no plano supra-pericôndrio; trapdoor é a complicação estética mais frequente
Romboide (Limberg, Dufourmentel)TransposiçãoBochecha, têmpora, tronco, região perioralDefeito convertido em rombo; escolha do lado doador pela pele mais frouxa; variantes reduzem o cone
Nasolabial (melolabial)Transposição ou interpolaçãoAsa nasal, lateral do nariz, lábio superiorEm tempo único (transposição) ou em dois tempos (interpolado, com pedículo seccionado em 3 semanas) para reconstrução da asa sem apagar o sulco alar-facial
Paramediano frontalInterpolação axial (artéria supratroclear)Defeitos de subunidade inteira do nariz, ponta, dorso, defeitos de espessura totalDois ou três tempos com intervalo de 3 semanas; permite forro e suporte cartilaginoso; padrão para reconstrução nasal extensa

A escolha depende do tamanho e da localização do defeito, da mobilidade e da redundância do tecido vizinho, da proximidade de margens livres, da espessura e da densidade sebácea da pele, da presença de cartilagem ou osso expostos e das condições do paciente (tabagismo, anticoagulação, radioterapia prévia, diabetes). Na ponta nasal, por exemplo, um defeito de 8 mm em pele sebácea espessa tende a ser mais bem reconstruído com bilobado do que com enxerto; o mesmo defeito em pele fina e pouco sebácea de paciente idoso pode ter resultado equivalente com enxerto de pele total da região pré-auricular.

Detalhes do procedimento em si estão na página pilar Cirurgia de Mohs e a discussão sobre por que o defeito é frequentemente maior que a lesão clínica em Margens cirúrgicas e controle histológico.

Enxertos

O enxerto de pele total é o mais usado na face pós-Mohs. Sítios doadores preferidos por semelhança de cor e textura: pré-auricular, retroauricular, supraclavicular, pálpebra superior (para pálpebra inferior), sulco nasolabial e, em casos selecionados, região conchal para defeitos alares. Requer leito vascularizado: sobre cartilagem sem pericôndrio ou osso sem periósteo, é necessário fenestrar a cartilagem, aguardar tecido de granulação ou optar por retalho. Imobilização com curativo de Brown (tie-over) por 5 a 7 dias e restrição de atividade reduzem o risco de perda parcial por hematoma ou cisalhamento.

O enxerto de pele parcial é reservado a defeitos extensos de couro cabeludo, membros e tronco, ou a situações em que a vigilância de recidiva tem prioridade (tumores agressivos com margens duvidosas, doença de Paget extramamária). O enxerto composto condrocutâneo da orelha é opção para defeitos alares de espessura total pequenos.

Timing: mesmo dia ou diferido

A maioria dos defeitos é reconstruída no mesmo dia, imediatamente após a última camada. A reconstrução diferida em dias ou semanas é considerada quando o defeito exige reconstrução em outro ambiente (centro cirúrgico, anestesia geral), quando há dúvida sobre a margem profunda em estruturas como osso ou nervo, quando se aguarda avaliação por parafina ou imuno-histoquímica em tumores em que a congelação é limitada (melanoma in situ, dermatofibrossarcoma protuberans, carcinoma sebáceo), ou quando a condição clínica do paciente no dia (hipertensão descontrolada, sangramento excessivo) recomenda prudência. Nesse intervalo, o defeito é mantido com curativo oclusivo e, se necessário, um curativo biológico ou hemostático. Esperar alguns dias não prejudica o resultado final e permite formação de tecido de granulação que favorece enxertos.

Os retalhos interpolados (paramediano frontal, nasolabial em dois tempos, retalhos palpebrais de Hughes e de Cutler-Beard) são, por definição, reconstruções em múltiplos tempos, com secção do pedículo em torno de 3 semanas e eventual refinamento em um terceiro tempo.

Co-manejo com cirurgia plástica e oculoplástica

O cirurgião de Mohs com formação em cirurgia dermatológica reconstrói a grande maioria dos defeitos cutâneos faciais. O co-manejo é indicado quando o defeito envolve espessura total de pálpebra ou o sistema lacrimal (oculoplástica), espessura total de lábio com necessidade de retalhos de Abbe ou Karapandzic, defeitos nasais com perda de suporte e forro que demandam enxertos de cartilagem, defeitos de orelha com perda extensa de cartilagem, exposição óssea ampla, defeitos que exigem retalhos livres ou anestesia geral, e pacientes com necessidades específicas. Áreas em que essa integração é mais frequente estão descritas para o paciente em Cirurgia de Mohs na pálpebra e Cirurgia de Mohs na orelha e no lábio.

O fluxo mais eficiente é o planejamento prévio: quando a avaliação inicial identifica um tumor cujo defeito provavelmente exigirá co-manejo, a extirpação com Mohs e a reconstrução são agendadas em sequência, no mesmo dia ou no dia seguinte, com o defeito protegido no intervalo. Para o médico assistente, o relatório final inclui a descrição do defeito, a técnica reconstrutiva e o profissional responsável por cada etapa.

Complicações e manejo

As complicações mais frequentes são hematoma, infecção, deiscência, necrose parcial de retalho ou perda parcial de enxerto, e as sequelas estéticas: trapdoor (abaulamento do retalho por contração circunferencial e linfedema), alargamento de cicatriz, distorção de margens livres (ectrópio, retração alar, elevação do vermelhão), hipopigmentação e discrepância de textura.

A prevenção passa pela hemostasia meticulosa, pelo desenho que evita tensão vertical em pálpebra e asa nasal, pela seleção correta do degrau reconstrutivo e pela orientação pós-operatória. O tratamento é escalonado: drenagem precoce de hematoma, antibiótico em infecção, desbridamento conservador de necrose com cicatrização por segunda intenção do segmento perdido, e, após a maturação (em geral 3 a 6 meses), revisão com dermoabrasão, infiltração de corticoide no trapdoor, laser vascular para eritema persistente, Z-plastia ou pequenas revisões de contorno. Complicações funcionais (ectrópio, obstrução nasal) devem ser reencaminhadas ao serviço que operou. Orientações de seguimento para o médico assistente estão em Como encaminhar um paciente para cirurgia de Mohs.

Perguntas frequentes

O cirurgião de Mohs reconstrói ou o paciente precisa de um plástico?

O cirurgião de Mohs reconstrói a maioria dos defeitos cutâneos faciais, incluindo retalhos locais e enxertos. O co-manejo com cirurgia plástica, oculoplástica ou cirurgia de cabeça e pescoço é reservado a defeitos de espessura total, com perda de suporte estrutural ou que exijam centro cirúrgico e anestesia geral, e é planejado antes da cirurgia sempre que previsível.

Como orientar o paciente sobre o tamanho do defeito?

Informe que o defeito final depende da extensão histológica do tumor e pode ser maior que a lesão visível, sobretudo em subtipos infiltrativos, esclerodermiformes e tumores recidivados. A reconstrução é definida após a confirmação de margens livres. Essa orientação prévia reduz a ansiedade e a percepção de "cirurgia maior que o esperado".

Quando a segunda intenção é preferível ao retalho?

Em defeitos de superfícies côncavas (canto medial, concha auricular, sulco alar-facial, têmpora), em pacientes com alto risco de hematoma sob retalho, quando se deseja vigilância direta do leito por dúvida de margem, e quando o paciente não tolera ou não deseja procedimento adicional. É evitada perto de margens livres suscetíveis a distorção por contração.

Enxertos na ponta nasal têm resultado aceitável?

Em pacientes selecionados, sim, principalmente idosos com pele fina e pouco sebácea, com enxerto de pele total de sítio pré-auricular ou conchal. Em pele espessa e sebácea, ou em defeitos que envolvem a asa, o resultado tende a ser inferior ao do retalho bilobado ou do paramediano frontal, e o enxerto fica reservado a quem prefere procedimento único e menor.

Serviços de referência para encaminhamento

Ao encaminhar um paciente para cirurgia de Mohs, verifique se o serviço reúne três condições: cirurgião com formação formal na técnica, laboratório de congelação anexo à sala cirúrgica e leitura das lâminas pelo próprio cirurgião. No Nordeste, essa estrutura se concentra em poucas capitais. Fortaleza conta com cirurgiões formados em centros de referência e recebe encaminhamentos de todo o Ceará e dos estados vizinhos. O conjunto de informações que agiliza a avaliação (laudo, foto, comorbidades e medicações) está descrito em Como encaminhar um paciente para cirurgia de Mohs.

Este portal é independente e não intermedeia encaminhamentos. As indicações seguem os critérios descritos em Sobre o portal Cirurgia de Mohs.

Referências

  1. Burget GC, Menick FJ. The subunit principle in nasal reconstruction. Plast Reconstr Surg. 1985;76(2):239-247.
  2. Zitelli JA. Wound healing by secondary intention: a cognitive approach. J Am Acad Dermatol. 1983;9(3):407-415.
  3. Zitelli JA. The bilobed flap for nasal reconstruction. Arch Dermatol. 1989;125(7):957-959.
  4. Menick FJ. Nasal reconstruction with a forehead flap. Clin Plast Surg. 2009;36(3):443-459.
  5. Baker SR. Local Flaps in Facial Reconstruction. 3rd ed. Elsevier; 2014.
  6. Rohrer TE, Cook JL, Kaufman AJ. Flaps and Grafts in Dermatologic Surgery. 2nd ed. Elsevier; 2018.
  7. Cirurgia micrográfica de Mohs: revisão de indicações, técnica, resultados e considerações. An Bras Dermatol. 2021.
  8. National Comprehensive Cancer Network. NCCN Clinical Practice Guidelines in Oncology: Basal Cell Skin Cancer e Squamous Cell Skin Cancer. Versões vigentes.